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Texto - "Cantos Sagrados" Manuel de Arriaga


Para um homem que aspira Ao ideal da Beleza, Não há maior tristeza, Mágoa maior não há, Que ver escurecer-se lhe O céu da noite escura De alguma ideia impura, De alguma paixão má! Paixão que muitas vezes A luz da nossa Ideia Acende, inflama, até-a, E depois nos atraem Com tanto magnetismo, Com tal encantamento, Que o homem num momento Vacila, cega e cai!... Cai, sim, do seio esplêndido Do mundo onde vivia Na mais doce harmonia Em paz com os dias seus, Para apagada a febre Do seu fugaz delírio, Achar-se com o martírio De te perder oh! Deus! Sem Ti, meu pai, que assombro! Que noite tão completa! Que acerba dor me inquieta Meu frágil coração!... Voltar a ver a alma Des Esperanças povoada, E achar a transformada Em lúgubre solidão! Senhor! se desabassem Á tua voz as belas E límpidas estrelas Dos céus que não têm fim, Eu creio que assombrado Do horrendo cataclismo, O Sol, do além do abismo, Seria igual a mim! Eu lembraria a águia, Que a prole ainda implume Deixando sobre o cume De monte erguido ao céu, A fosse achar de súbito Na rocha alcantilada, No ninho, fulminada De um raio que desceu! E Qual seria o quadro Da minha consciência, Ao ver a tua ausência Fazer-se em mim, Senhor! Que em volta do teu astro Minha alma de poeta É pálido planeta Buscando o teu amor! E eu sem ti nem vivo!... Tu és, oh, doce esperança, O seio onde descansa Meu ser e afinal Não sei até dizer-te O quanto sofreria, Se vira extinto um dia Em mim, teu Ideal! Oh não mil vezes antes Em cárcere ermo e escuro, Achar-me de futuro A sós cá minha dor; Extinta a luz dos olhos, E as belezas do mundo, E o céu azul profundo Com todo o seu fulgor! Tu crê que nem demandam Os mundos inferiores Focos de luz maiores, Por esse infindo azul, Como eu o eterno centro Das leis da natureza, Do Amor, e da Beleza, Que são meu norte e sul! Oh Pai! se nalgum dia, Eu vir, numa miragem, Alguma falsa imagem Do Bem prender-me aqui: Desvenda a tua face, E mostra-me o teu seio, Que, mesmo embora em meio Do abismo, irei a ti! Irei, tão instintivo, Tão amoroso e firme, Eu sinto a atrair-me A ti o teu poder, Que eu vejo em ti o Norte, Para onde se encaminha A pura essência minha, Que sente, pensa e quer! Irei vencendo, indômito, Inúmeros atritos, E escolhos infinitos, E infindos escarcéus, Como essa vaga enorme Do mar que não recua, Seguindo sempre a lua Que vê passar nos céus! Irei bem como a Terra Seguindo eternamente O rumo do oriente A demandar a luz; Bem como Jesus Cristo O rumo solitário Da senda do calvário Á busca de uma cruz! Irei cá deste mundo Onde tu me cedeste A dádiva celeste Da Razão e do Amor: Raios vitais que mudam Em luz a nossa essência, E a luz em Consciência, E está em ti, Senhor!

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