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Texto - "Oliveira Martins: Estudo de Psychologia" G. Moniz Barreto


Dormia toda a familia de Quijano no andar nobre da casa, á excepção do caixeiro mais moderno e dos cães, que se acommodavam no pavimento terreo, destinado quasi exclusivamente ao escriptorio e suas dependencias. Os dois cães, Moiro e Pomba, dormiam no gabinete do banqueiro, que estava ricamente mobilado, ao passo que o caixeiro se alojava n'um quarto pequeno e humido, alumiado apenas por uma especie de fresta ou gateira aberta na parede, situado n'um patamar constantemente varrido pelo vento que entrava da rua e pelo que vinha d'um pateo que havia nas trazeiras da casa; a mobilia d'esse mesquinho aposento consistia toda em um leito de pinho com colchão, dois lençoes, um cobertor, um travesseiro e um lanceiro ou cabide tôsco para pendurar o fato e... grandes cortinados de teias d'aranha pendentes do tecto. Em tempo dormia o caixeiro mais moderno (rapaz de tempo) n'um quarto excellente do andar nobre; D. Lucas porém havia disposto as coisas por outra fórma, muito antes da época a que me refiro; tinha lá umas ideias suas d'hygiene, em virtude das quaes dizia que muitas vezes os caixeiros adoeciam por passarem repentinamente d'uma vida incommoda para uma vida commoda, d'um colchão duro para um colchão molle, d'um quarto mau para um quarto bom. Quiz o tio oppôr-se áquella estupida innovação, ponderando que o que fazia adoecer os rapazes que entravam para sua casa não era senão o pessimo tratamento que recebiam de D. Lucas; este porém, taes argumentos empregou em defesa da sua theoria, que, para se livrar de polemicas, teve o pacifico banqueiro de concordar com elle. Os rapazes continuaram a adoecer, mas D. Lucas afirmava ao tio que tudo aquillo era fingimento e impostura para que os deixassem dormir no andar de cima, e o bom do banqueiro, que já não tinha pequena cruz nas teimas e ralhações de sua mulher, não quiz continuar em divergencia com o sobrinho, e acabou por admittir o seu barbaro systema penitenciario. Patrões e caixeiros ceavam quasi simultaneamente, sendo as sóbras da mesa dos primeiros servidas aos segundos. D. Lucas comia de ordinario com estes, excepto porém nos dias sanctificados e á noite, que fazia companhia aos tios. Não podia o sobrinho do banqueiro tolerar que os caixeiros fumassem, e não obstante tinha uma paixão desmedida pelo tabaco; mas diante do tio não era capaz de fumar, e isto explica-se facilmente. D. Lucas começou a fumar quando, pela sua pouca edade, carecia para o fazer de occultar-se do banqueiro; e mais tarde, quando já eram escusadas essas precauções, continuou a matar o vicio ás occultas, talvez por habito, e talvez tambem por não dar o seu braço a torcer, por isso que em tempo tinha jurado e tornado a jurar ao tio que bastava o cheiro do tabaco para o transtornar completamente. Erguia-se da mesa, ainda com o bocado na bocca, e entrando na cosinha, onde comiam os caixeiros, apertando o seu cigarro, que se não atrevia a accender, com medo de que na sala se presentisse o cheiro, pegava n'um castiçal e dava a voz de deitar ao rapaz de tempo. Achava-se este ainda em meio da ceia, por isso que os outros lhe levavam sempre um prato de vantagem, mas D. Lucas estava desesperado por fumar, de maneira que o pobre rapaz não tinha outro remedio senão levantar-se da mesa, dar as boas noites a toda a familia, começando pelos caixeiros, e seguir a D. Lucas, que já pelas escadas abaixo tirava cada fumaça que valia bem um dobrão. Em quanto o pequeno se deitava, alumiado pela vela collocada no corredor, em frente da porta do quarto, acabava D. Lucas de fumar o seu cigarro, pegava no castiçal, fazia quatro festas aos cães, deitados n'um colchãosinho muito fôfo, e em seguida subia as escadas a fim de passar um bocado da noite na companhia dos donos da casa.

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