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Texto - "Nas Cinzas" Eugène Berthoud


Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem. Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer "água vai". Não tinha as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna. Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova, expositor em Londres, mestre de dança em S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos. Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre assim, durante meio século! O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa. Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções corrosivas da perda e do ganho. Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza, e dissera consigo: "Não irás além!" Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada. Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez. Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou andrajoso e faminto.

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