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Texto - "Amor Crioulo" Abel Acácio de Almeida Botelho

feche e comece a digitar
O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefável sensação de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as viagens em nós despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num alvissareiro estímulo interior . De tudo quanto o rodeava crescia para ele o interesse. Livre, pelo momento, de preocupações sobre o futuro e assediado por todo um mundo de sons, aspectos, cores, ideias e coisas novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma dilatava-se lhe num voluptuoso apaziguamento sem termo, como essa lista toalha imensa de mar, sem perfídias e sem cóleras. A corneta chamara para o primeiro almoço. Fórum, pelo espaço, havia sol, havia luz, e o tépido acariciamento da brisa casava-se numa eurritmia perfeita com o manso ronronar das águas. Neste plácido ambiente de espuma e oiro, as silhuetas saltavam nítidas, as tonalidades ganhavam valor, sentia-se mais amigo e mais próximo, mais potente, mais cálido, mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar extasiado do Silveira, todo o pigarra do movimento de bordo se esmaltada de tintas de relevo, de cânticos pagãos, de brados genésicos, de inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixões fossem mais fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Saindo, na direção do refeitório, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrança dos seus ignorados, dos seus humildes correligionários da passada noite, e ia a demandá-los, com piedosa atenção, através a gradeada porta da masmorra que ali assim perto os mantinha a distância, quando uma outra solicitação mais empolgada e mais instante lhe rompeu da alma em alvoroço: a imagem fugidia e alada da jovem argentina, entrevista também na véspera, no salão. Mas, por azar, - debalde o Silveira esperou! - nem ela nem ninguém da família baixou a comer. Não havia então remédio senão confiar do acaso o providencial milagre de a ver aparecer. - Mas quando? mas aonde?... - E aí sobe ele de golpe no ascensor e vem atravessar o salão e faz o giro afanoso do barco, mirando em todas as direções, perquirindo os bizarros grupos distribuídos preguiceira mente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupação essencial, o resto marcava zero para ele, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber. Acotovelavam insensível os arremanga dos homens do esporte, cortava indiferente as interesseiras chacras de grossos burgueses, vestidos de fustão branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente, às louvam investidas do dr. Contreras, em termos de passar por malcriado; e por um triz não prega de borco sobre o convés com uma barafustando Paquetá baiana, magra, pequenina, ictérica, que comandava a poder de gritos e truanescas evoluções uma chusma de pequerruchos. Por fim, essa adorável argentina ei-la que aí vem agora avançando... Vem só. Era alta, esguia, frágil e avançava leve e aérea, como um reflexo de si mesma, lembrando no porte e na frescura um desses longos, finos e eretos fustes da palmeira imperial, com o vértice pessoalmente verde. Seguia breve e alienadamente, com uma simplicidade não isenta de nobreza, e foi sentar-se junto da mãe, uma repousada e aparatosa senhora que nos parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela segurança de tranquila contemplação que enfim consegui, já não abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que fosse notado, entregar-se a esta viva e desbordante análise que a sua alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia à excitação misteriosa que dentro de nós faz chispar o maravilhoso reflexo interior da simpatia. - Era curiosa, enternecedora mente curiosa, com efeito, esta linda desconhecida. Aparentava 20 anos, não mais. Farto cabelo castanho, sem brilho, descendo em bandos singelos a juntar-se sobre a nunca; pequenina testa espiritual, em triângulo; os olhos castanhos também, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lançadas solta mente; o nariz projetado direito e um pouco longo, toda a face alongada por igual, perfil grego, traçado num como que afinamento idealista e ingênuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos, muito iguais, e a boca breve, os lábios finos mas expressivos, resumindo o que porventura havia de vida e de paixão nesta criatura reservada e tímida. Nenhuma espécie de atavios: nem espartilho, nem joias. Apenas na base do pescoço, ático e longo como um mármore da Jónia, um colar de corais napolitana. As suas mãos, de dedos brancos e finos como longos estames, e mais claras que o tom mate do rosto, eram o prolongamento lógico de toda a figura, lembrando os tenros rebentos duma árvore de sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se lhe no vago, enquanto na filigrana húmida dos lábios perpassa um frémito breve de emoção. Na alma ardente do Silveira romperá agora o desejo veemente, irreprimível, de mutuar impressões com a linda desconhecida. -Mas como consegui-lo, como chegar aonde a ela?... - considerava com afinco, instalando-se lhe na frente, numa atitude de estudo abandono, os cotovelos sobre a amurada. - Tinha que haver uma apresentação, manobra táctica reconhecidamente difícil para o investimento cortês duma família como aquela, que ele não via comunicar-se com ninguém, que ninguém saudava e que a ninguém retinha, mantida mui deliberadamente no seu desprendido círculo de isolamento e indiferença. Assim, uma aproximação em condições favoráveis, segundo as regras do bom-tom, não era empresa vulgar. - O Silveira, de lábio pregado, reconhecia-o, e esta descoroçoado evidência, longe de o desalentar, mais o entardecia. - Havia que buscar... - Aumento da febre da impaciência, planizava estratagemas, ideia hipóteses, amontoava projetos, que, mal esboçados ainda, todos logo fracassaram. Então, em alternâncias de dulcíssima pausa, como um bálsamo, o áspero aguilhão do seu cuidado amolecia na contemplação delicada e atenta desse baluarte suave de isenção e de virtude. Mas logo, mais despótica, mais tenaz, a sua amor da obsessão voltava, por cada um destes venusianos exames trazida a um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatar a vontade e lhe acendia o desejo. Um momento veio então em que o Silveira notou que, um pouco mais ao largo, à ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um jovem glabro e calvo, com o ingerido busto dobrado sobre uma destas pequeninas mesas portáteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lápis seguiam numa carreira febril, dir-se-ia ao atropelo cálido da improvisação, enchendo folhas sobre folhas soltas, que a aba loira dum grande panamá protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propósito executivo e grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e imobilizou-se, como que colhido em pausas de transcendente laboração interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lápis erguido digitalmente sobre o lábio sibilino. Depois, num ímpeto criador, um estremeção simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, ele recomeçava inflamada mente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao Silveira que, numa destas estases de espiritual concepção, o biltre encarar particularmente a adorável argentina, a criatura esfíngica do seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambiará com ela um qualquer familiar sinal de inteligência. - Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz até à insolência... Bem, mas então, nesse caso... havia que conhecê-lo a ele também! - E forte nesta ideia, feliz por este relâmpago de aproximação salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de espaço a espaço aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso traço inicial à sua fortuna. - Era uma figura abortiva e grotesca, assim tortuoso, magro, pequenino, com o seu bigode loiro, raso à raiz dos lábios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, cabeça cheia de dor, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal, aparada caricaturalmente em ponta, num desses estiramentos cucurbitáceas peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoço sobre a ladeira débil dos ombros mais acentuava o dezaliamento quebradiço e vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sobre este pescoço estriado, sobre estas mãos nodosas, sobre esta cabeça paradoxal que parecia recém-saída dum cataclismo, não havia a epiderme rugosa e áspera que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penosa e clara duma pele de efebo, mate, adoçando os contornos, com aquarelas transparentes e manchas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente; a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava súbito a uma rubefação de repente foi infectado com herpes e adusta no revestimento crassos das desertas grimpas do crânio luzidio. Vestia um jaquetão negro de lustrina, colete e calça de flanela creme, sapatos brancos, peúgas roxas, a camisa a céu aberto, e a farta gravata de seda negra caída e solta num desmanchado laço de artista. Um misto de pedantismo e inconsciência, de garridice e desmazelo. Propunha-se o Silveira abordá-lo, quando um pequeno incidente surgiu, interromper seu propósito e colocá-lo em um passo difícil... Era o conde Amélio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o "grande fidalgo português e seu não menos amigo", logo de acercar-se lhe, expansivo, sorridente, num afetuoso desbarato de gestos e mimadas atenções, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mão, familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas, ofertas, lembranças, solicitudes. - Que fazia ali assim? porque não vinha com eles?... - A adorável irlandesa, numa sublinha cativante, sorria também. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de súbito posto à prova na duplicidade egoísta dos seus instintos. Gaguejava de embaraço, não acertava com uma posição, as palavras não lhe acudiam. Tomava-o uma espécie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se assim em uma faixa estúpida entre essas duas solicitações, qual delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar, por fazer-se admitir ao convívio da linda americana, cuja linha patrícia e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual Mrs. Edith, cujas boas graças não queria perder, mas junto da qual também não lhe convinha fazer demasiado ostensiva parada de atenções, neste momento. Defendia-se por monossílabos, numa grande instabilidade de movimentos, chorando como um colegial e mirando de escape, numa idiota solicitação de escusa, a bela argentina, que nem dava por ele. Por fim, ante a insistência pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo que breve iria, a estibordo, ter com eles; e tornou a chorar mais forte quando o conde, já longe e ao dobrar a esquina do deck, se voltou num gesto afável, acenando-lhe convidativo com a cabeça. Daí a instantes, liberto do relativo pesadelo, acercou-se dissimulado do incansável rabiscador, o qual, no momento justo, arredará, num desvio brusco do antebraço, a grande aba do panamá protetor de sobre as tiras de papel, que logo espalhar ao acaso, como árvores, pelo espaço. E logo também o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solícito, baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolhê-las.
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