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Texto - "Contos d'Aldeia" Alberto Braga


Depois do jantar, o velho arrastava-se até à poltrona, que tinha ao canto da janela; e, bem refestelado, com os pés estendidos, as mãos cruzadas sobre o ventre e a cabeça encostada no espaldar, dormia patriarchal mente a boa sonata da sesta. De uma vez, era em julho, e, ás duas horas da tarde, fazia um calor insuportável. Até parece que a natureza também dormia a sesta! Lá fora, no quinteiro, as folhas das árvores pendiam desfalecidas. Ouvia-se o murmúrio monótono da bica d'água a cahir, como uma lágrima, sobre uma pia de pedra, debaixo de uma latada. As portas das janelas estavam entre-abertas para deixar entrar na sala uma fita de sol, que se estendia aos pés do velhinho, como uma esteira de luz. No outro canto da sala, a filha do capitão, sentada numa cadeirinha de pau, despontava uma camisa de criança, mas tão pequenina, que parecia uma camisa de boneca! Ouviam-se até uns pequenos estalidos secos da agulha, atravessando a gomma do morim novo e em folha. O Abel!... Era um regalo vê-lo sentado no chão, em camisa, com as pernas roliças á mostra, um ventre redondinho de abbade feliz, e os pezinhos cor de rosa! Aos pés do avô, na réstia do sol, tremia a sombra de umas folhas do plátano do jardim. A criança engatinhou para lá. Como uma pequenina féra, atirando-se de golpe sobre a presa, o Abel lançou-se rapidamente sobre a sombra trêmula das folhas; mas-que ludibrio!-ficou triste, espantado, com os olhos muito abertos, a contemplar a palma da mão vasia! Ao lado estavam os grandes pés do avô, metidos nos dois grandes chinelos de tapete. Oh! eram duas colinas! E as pernas? As pernas pareciam dois enormes castelos roqueiros. No espírito belicoso da criança surgiu a ideia terrível de os assaltar. Fincou as mãozitas nos chinelos do avô, levantou-se valentemente nos pés, e upa! upa! arriba! Nessa occasião o velho sonhava: Tinha remoçado cinquenta anos! Os franceses invadiram Portugal! Quando ele estava na tenda de campanha, a dormir no dia seguinte ao de uma batalha, viu entrar inesperadamente o exército de Bonaparte. As paredes de lona da tenda iam recuando, recuando, para dar entrada às hostes imensas do inimigo. Os esquadrões sofridos da cavallaria corriam sobre ele. Em volta da tenda levantou-se rapidamente-como nas mágicas do theatro!-uma bateria, com as bocas dos canhões apontadas para o leito. Os piquetes de infanteria corriam a marche-marche, de baionetas caladas, para o surpreenderem no somno. Ao fundo, no viso de um outeiro, Bonaparte, o terrível Bonaparte, com as suas botas de escudeiro e o seu chapéu de bicos posto de través, como o chapéu de um estudante de Salamanca, assentava sobre ele o óculo de alcance, sorrindo alegremente da victoria! O capitão Macário via tudo aquilo, ouvia o estrépito dos cavalos, o tropico da infanteria, as gargalhadas de Bonaparte, e sentia-se preso ao leito, impotente, inerme, anunciado, sem poder gritar!... Façam ideia! De repente, todo aquele exército enorme se transformou num gigante, que lhe prendeu brutalmente as pernas com dois grilhões de ferro! O capitão esforçou-se ainda por se levantar; mas conseguiu, apenas, depois de muito custo, soltar este brado affliction, com uma voz convulsa: -Ás armas! E despertou, ouvindo as gargalhadas de... Bonaparte! O velho abriu desmesuradamente os olhos, volveu-os espantado em torno de si; e, quando um instante depois, se sentiu completamente acordado, deu com o netinho, que lhe puxava pelas pernas, para lhe subir ao collo! A criancinha estava com os olhos levantados para o avô, a sorrir, muito alegre, porque julgou que tinha sido para ela, como brincadeira, aquele grito sufocado -Às armas!

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