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feche e comece a digitar

Texto - "Os Pobres" Raul Brandão


Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra. As coisas di-las-íeis recolhidas e cismáticas. É como um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruído doce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raízes à mostra, arrasta no aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água, para um destino ignoto. Assim a vida. É um rio de lágrimas, de brados, de mistério. A onda turva põe as mais fundas raízes à mostra, a torrente leva consigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esquálidas dos que sofreram encontram enfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam atónitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade... Vede... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catástrofes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um príncipe. De que terra? direis.-Do sonho. E assim neste prédio revolvido me quedo, sozinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada criatura nascida traz consigo uma fonte, fio de água humedecendo a frincha duma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ela que tira à vida a sua secura. Em certas criaturas pobres e simples quase se ouve essa água correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos à sua sombra. É emoção. Minai, não na deixeis secar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos. Neste casarão onde moro a toda a hora se ouve o ruído da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplêndidas. Escutai!... Prega o Inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutai, escutai!... São meus vizinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato-pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam às vezes na rua, com xailes púrpuras a rasto; o gato pingado só sai à noitinha, à hora dos morcegos. Mais tímido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e roto. Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes dêem um pedaço de pão e só se deitam no sepulcro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome. Se passam pelas árvores, num dia de Primavera, tão lindo, que até as próprias macieiras de comovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As árvores retraem-se, as coisas calam-se ao vê-los passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que eles vivem aos gritos, ofendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria? O gato-pingado... Ei-lo que sobe. Cada passo me lembra uma pazada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapéu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sai para os enterros. Deve ser mau, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-no quando ele passa pela rua, esguio, vesgo, de chapéu alto e casaca, rígido clown da morte, que em lugar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lágrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, júbilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato-pingado! Gato-pingado! Vive de lágrimas, sustenta-se de dores. E quando vai, de tocha acesa, esguio, a galgar atrás dum carro funerário, na reles mascarada, em que irá ele a pensar, esbaforido e triste?...

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