Texto - "Infelizes: Historias Vividas" Ana de Castro Osório

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A tia Clara, essa adorável velhinha que fez há dias cento e quatro anos, teve também os seus dezoito - e por sinal encantadores de frescura e graça.

Mal podemos crer isto, nós que a vemos hoje tão serena, tão identificada com a nossa vida, tão igual a nós pela lucidez do espírito, sempre de uma inteligência e de um interesse perfeitamente juvenil.

Eu adoro essa querida velhinha que não se envolveu nas recordações e remordimentos egoístas como numa antipática couraça eriçada deespinhos.

Não! Ela recorda todo o passado, mas suavemente, sem comparações desfavoráveis para nós, como os velhos impertinentes costumam!... Relembra, levemente melancólica, os tempos longínquos da mocidade, tão distante aos nossos olhos, tão vivos ainda na sua memória.

A sua alma é um piedoso Campo Santo habitado pela saudade de todos os seus amigos, de toda a sua família mais próxima, que a um e um a foram deixando na velha casa senhorial, já em parte abandonada de grande que é!... mas o seu coração santíssimo vai florindo sempre jovem, amando com igual afeto todos os que de novo chegam à família...
Ah! Eu não me esqueço, minha boa amiga, da saudade reconhecida que me ficou na alma quando, a última vez que a visitei, a vi afastar-se lentamente na meia obscuridade do longo corredor.
Seguia-a um ligeiro esvoaçar de recordações, toadas simples vindas de muito longe - os franceses, guerras, mortes, nascimentos, toda a sua vida singela passada na hereditária quinta perdida entre serras, onde os echos do mundo devem ter chegado sempre esbatidos em meias tintas pallidas.

Tenho ainda no meu ouvido o som inolvidável da sua vózinha quebrada dizendo serena e sorridente: assisti às últimas endoenças no convento de Maceira Dão!... E tudo morto nesse passado cheio de poesia, visto assim de longe, evocado pelo seu espírito bondoso!...
Mas a desvairada fuga aos franceses é que eu, mais do que tudo, gosto de lhe ouvir contar.

- Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda.
O céu, todo em fogo no poente, flamejava num incêndio colossal - toda a alma da Pátria agonizante levantando para Deus a última esperança, no último clarão de tiros ao longe.

Os franceses, os franceses!... Esse grito estridente como uivos de animais apavorados corriam de boca em boca, era um sinal de fuga, de miséria, espanto geral.

O povo ignorante e bom voltava para o céu os punhos cerrados numa desesperada ameaça.
Abandonado por todos na sua pátria invadida, agarrava-se à terra como a sua única defesa, o seu único amor, a única razão de existir.

As mães uivavam de dor pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra.
Outras estarreceu-se num silêncio medroso...
Toda a alma portuguesa fremia num anseio de liberdade.

Os reis fugiam desprezvelmente covardes; os ricos ainda por vezes abriam os seus palácios em festa ao passeio triunfal dos invasores; só no povo era sem tréguas o ódio.
Ele saberia resistir ou morrer! Miserável povo que sacudiu num ímpeto de revolta olímpica o jugo dos invasores e curvou a cabeça humilde às exigências dos aliados! Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado nas horas más! Ingênuo povo que todos vão acordar em sobressalto quando o perigo bate à porta e de que todos se riem depois, quando não é já precisa a força do seu braço nem a fúria da sua coragem!...
Também a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia deve estar esquecido, guardado pelos matagais e serranias bravas, chegou o desvairado clamor, o tremendo grito:
Os franceses, os franceses!... a pôr em fuga toda a família da Clarinha - era assim chamada há oitenta e seis anos a minha boa tia Clara.

Ela era a mais nova das irmãs; fina, graciosa, de uma pallidez de reclusa, uma grande curiosidade perfulgente nos seus olhos castanhos.

Ao saber a notícia o coração pulsou-lhe comovido numa inconfessada alegria... Qual de nós aos dezoito anos não compreenderá essa alegria?
Não ter saído nunca do seu vetusto solar - salas e salas, quartos incontáveis, corredores tão compridos que é impossível conhecer quem vem ao fundo!... Os santos da capella doirados e ridentes seriam os seus mais queridos companheiros, aqueles que melhor compreenderam a sua alma inquieta, sedenta de novo!... Se ela não havia d'estar alegre, no fundo, bem no fundo do seu coração, por essa fuga decidida que a ia tirar por algum tempo da monótona vida de todos os dias?
!...
Era triste a existência da Clarinha, passada na miserável aldeia de casebres colmados, que rodeiam a quinta dos fidalgos como outrora as choupanas dos servos se encostaram medrosas às fortificações dos castelos feudais.
As irmãs, casadas; os irmãos, passando a vida dos fidalgos daquele tempo, caçavam, namoravam as primas de vinte léguas em redor, estavam cavalos e corriam às feiras.

De quando em quando, pelas festas do ano, cortavam o fastidioso correr da vida cavalgadas que chegavam ao pateo, primos e primas que se apearam contentes abraçando a Clarinha, que alvoroçada os vinha esperar à porta.
Então, dançava-se, passeava-se, mais do que tudo, comiam-se jantares phenomenaes e ceias lucullianas.

Mal os hóspedes saiam, a vida regulava-se tediosamente como de costume e apesar da família ser muita, passavam uns pelos outros como sombras na enormidade da casa.
Quantas vezes, pelas agonizantes tardes de outono, não atravessou ela a quinta e subindo o outeiro em frente se foi sentar nos degraus do Santo Christo, fantasiando o mundo, sonhando com alguma coisa nova que a fizesse sofrer e viver?
!...