Texto - "Os Bravos do Mindello" Faustino da Fonseca

feche e comece a digitar
Saíram para a praça, repleta de gente.

Não queriam voltar para as freguesias rurais, sem saberem a decisão,
os homens do monte, as mulheres com o cabelo de risca ao meio a
luzir de unto, saia pela cabeça, estufadas de saias sobre saias, os
pés metidos em galochas de cedro, com palas de couro verde, avivadas a
vermelho, luzentes de ilhós, cravejadas de pregos de aço.

Nos grupos da gente da cidade graves artistas independentes,
carpinteiros, ferreiros, ourives, sapateiros, marceneiros, alfaiates,
trabalhando na própria casa, e para si, auxiliados pelos filhos, ou
por aprendizes e officiaes, que sentavam á sua meza.

Esperavam num grande ar de solenidade, orgulhosos dos capotes de bom
panno azul ou castanho, presos por fechos trabalhados de latão ou de
prata.

Comerciantes de chapéu alto, grande casaca, no rigor do trajo
constitucional, ostentando bigodes, afadigam-se por entre os grupos
de artífices e camponeses, achando todo o apoio naqueles, e nestes
uma desconfiança hostil.

Sentia nas novas leis o seu advento a burguesia liberal, e defrontava
por toda a parte o fidalgo e o convento, senhores da terra, parasitas
do trabalho, e queria oppor aos monopólios a liberdade commercial.

Mulheres do povo, de capote bermeo, numa explosão de escarlate;
burguesas e fidalgas de manto negro, reunidas em pequenos grupos,
parentes, amigas; viraram incessantes os biônicos mal saía uma pessoa da
câmara, e atravessava a praça laqueada pela ansiedade da decisão.

A dentro dos capotes e dos mantos, por sob as pregas aparentemente
uniformes, adivinhava-se no esguio, no flexível da cintura, no
irrequieto do bico de pássaro, no adejar de vôo dos largos pannos, as
noivas do batalhão, as apaixonadas dessa juventude que, no prestígio
da farda, na vivacidade de lisboetas, no seu falar cantado, endoidecia
as raparigas, com grave ciúme dos patrícios ofuscados.

Reconhecia-se o abandono das quarentonas sem futuro, gordanchudas,
afogadas em seios já inúteis, semeadas por entre os grupos como
escolhos, em torno dos quaes esvoaçavam os bandos de garças.

Havia vendedeiras de capello deitado para trás, sufocadas pelo calor
e pelo medo de perderem o rosário de dívidas deixadas pelas tropas ao
levantarem campo.

Taparam rebuços os rostos lacrimosos das namoradas e amantes dos
soldados, dos officiaes e dos sargentos; mas carpiam-se, por todas as
saudosas, as mulheres da Rocha, lenço de seda na cuia, xaile
terçado, rosetas de vermelhidão nas faces, lábios pintados,
arrepelando-se, bradando contra a saída desses divertidos rapazes,
cujas guitarras trinavam melhor que as enfadonhas violas de arame da
terra, desses bons fregueses, tão generosos e tão pândegos.

Capitaneado pela Joaquinina do Ó, estava o rancho das beatas encoberto
com o canto da rua da Sé.

De atalaya á botica, destacava alvissareiras para o convento dos
franciscanos; era um constante borboletear de mantos pela ladeira de
São Francisco, e as que voltavam falavam ás que iam, encostando n'um
tremelicar nervoso os biônicos, como antenas de formigas.

Traziam medalhas com o retrato de D. Miguel, bentas pelos frades, e
que eles próprios lhes tinham posto ao peito, para ostentarem
vitoriosamente, mal houvesse a certeza de que retiravam os caçadores.

A aparição do boticário, afadigar-se nova emissária ladeira acima, e
foi adejando o enxame atrás do velho e de João, seguindo-os por entre
os grupos até junto da escada de pedra, que subia exteriormente à
fachada do edifício, encimado pela torre do sino onde se tocava a
recolher.

Para os lados da rua do Gallo reunia-se o grupo dos mais influentes
constitucionais, que não tinham assento no conselho.

Por vezes distraia a expectativa o burburinho, gritos, risadas,
vindas dos arcos da cadeia.

Davam para as arcadas que sustentavam a varanda de pedra da fachada,
as janellas das enxovias, onde havia cestos arvorados em canas, como
aparelhos de pesca armados à compaixão.

Ia a gente do monte agarrar-se às grades, uns a comprarem pentes e
grosas de botões de chifre, enfiados em agulhas de feno; outros a
mirar com olhos compassivos a nudez da prisão, a bilha de água, o
immundo boião dos dejectos, a tarimba de madeira onde se mantinha
acocorado o Marmanjo, meditabundo, envolto em pedaços de colcha
esfarrapada, offendido por essa profanadora curiosidade, elle, o
santinho, como lhe chamavam os frades que o tinham de olho para
carrasco; muito temente a Deus, notavel pela frequência com que se
confessava e comungava, e indigitado para a nobre missão de executor
pela limpeza com que em S. Bartholomeu demolira com uma só paulada o
homenzarrão de um vizinho.

Regatear em voz fanhosa gaiolas de cana com melros pretos de bico
amarelo, grandes cantores, o Mujinha, baixo, olhinhos de bisnau,
pondo um traço de intrigante na cara rugosa; gatuno, faxina da cadeia
e afilhado de crisma do carcereiro que lhe levava caridosamente á
porta as gaiolas, em ademanes de sacristão.

Com a pronunciada queda commercial d'esse, contrastava a do seu
vizinho de janela, o Zica, muito correto e limpo, cantarolando á
moda da ilha de S. Miguel, vendendo pentes de baleia, cumprindo
resignado a pena imposta por uma desforra tirada à má cara, numa
noitada de vinho.

Este era constitucional, e arvora sempre, provocadoramente, as guias
do grande bigode, sem sequer as deitar abaixo, apesar das denúncias do
santarrão pretendente a carrasco, e das intrigas do gaioleiro, durante
o tempo em que a ilha acatará a usurpação.

Logo na grade contígua outro miguelista, o Roseiro, um velhinho sem
dentes, deprimido como uma fava escoada, alegrava os curiosos com
inesgotáveis histórias de toiradas, em que era uma auctoridade, e
recebia em troca pedaços de pão de milho, e algum grande pataco com a
effigie do senhor D. João VI, em prêmio à fidelidade e à coragem com
que descrevia o senhor D. Miguel rejoneador toiros desembolados, e o
seu confessor, fr. José da Rocha, saltando à praça e pegando à unha.