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Texto - "Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba" Antonio de Trueba


É bem diferente disto o meu querido país, os campos amenos da Biscaya! Lá alveja a neve lisa e pura por sobre a relva e as penhas, nas árvores e nos telhados, e quando o sol ou a chuva a derretem não é em lodo que se converte, mas sim em cristalinos arroios; lá não se apinha, confunde e atropela a gente, o gado e os carros, que a todos Deus concedeu campo e largueza por onde se espalhem á vontade; e se também ali sopra o ar frio do inverno, é ar que dá saúde em vez de tirar -a. Ai! quão diferente teria corrido para mim o dia, se o passasse na minha aldeia! Se lá estivesse, andaria no campo a patinar no gelo; teria feito grandes bolas de neve no alto da montanha, para as ver despenhar-se no valle; em seguida voltaria a casa, e depois de ter almoçando junto do lume, subiria à trapeira para apanhar os pássaros, que ali vão abrigar-se do mau tempo e procurar o sustento que não encontram nos campos cobertos de neve; e à noite, enquanto minha mãe estivesse preparando a ceia, contar-me-hia meu avô as suas façanhas da guerra da independência. No fim da ceia iria para a cama acompanhado por minha mãe, que depois de me cobrir e agasalhar cuidadosamente, se despediria de mim, como de costume, com um doce beijo. Ai! que differença! assim não estaria, como agora estou, acordado e a chorar, mas dormiria tranquilo e sossegado até que, com outro beijo, fosse despertar-me pela manhã! Entregue a tão saudosos pensamentos passou Angelo em claro quase toda a noite. Já se ouviam na rua os pregões dos vendilhões e fornecedores da cidade, o barulho dos carros e os passos dos transeuntes, quando, vencido pela vigília, e tomado do cansaço do corpo e do espírito, caíu em um benéfico somno. Adormeceu profundamente; roçaram -se-lhe as faces, e a posição em que ficará e a sua respiração serena e plácida, revelavam uma dulcíssima tranquilidade d'espirito; entreabria-lhe os lábios aprazível sorriso, e, de vez em quando, soltava deles os nomes de pai, mãe, e outros como estes saudosos e gratos ao coração da desventurada criança. Agora sonhava que se achava na aldeia, cercado da sua família ou brincando com os seus companheiros de infância; depois, que trepava ao cimo das árvores em busca de um ninho de rôla, ou de pombo torcaz; derrubava às pedradas as maçãs e as nozes; corria ao bosque a fazer assobios da casca do castanheiro, ou ao ribeiro para construir moinhos de junco; logo subia ao alto da montanha, coroada por uma ermida, em roda da qual andava o tambor chamando para a romaria. Por último sonhava que era noite de S. João, que todo o vale estava iluminado pelas fogueiras acesas nos oiteiros, e o inundavam d'alegria o repique dos sinos, os morteiros, as cantigas e os gritos de júbilo, que acompanham sempre aquela festa clássica e essencialmente infantil! Embalado nestes sonhos deliciosos, que lhe representavam todos os encantos do seu paiz natal, sonhos que melhor do que ninguem póde adivinhar o autor deste livro, porque também chorou e sonhou como ngelo, não ouviu o pobre menino às sete horas que bateram compassadas no relógio do escritório.

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