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Exercício de digitação: "Os Simples" Guerra Junqueiro
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Exercício de digitação: "Os Simples" Guerra Junqueiro
Vêm sanguinolentos gritos moribundos
Das soturnidades torvas do horizonte!...
Já nos ermos andam lobos vagabundos...
Já os rios cheios, com bramidos fundos,
Num dilúvio d'água vão de mar a monte!...
Em casal de serras arde o castanheiro,
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor do grande, festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.
Queima-se o gigante, rude centenário,
Que jamais os astros hão de ver florir...
E do seu cadáver o esplendor mortuário
Faz d'essa choupana quase que um sacrário
Com uma alma d'oiro dentro d'ela a rir!...
Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
- Morte negra, foge do telhado, ó, ó... -
E no lar as brasas simultaneamente
Dizem para o anjo: tudo é oiro ardente...
Dizem para o velho: tudo é cinza e pó!...
Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
Em pequeno, alegre como um colibri,
Não trepara aos braços todos verdejantes
D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
Há de ver em cinzas já desfeito ali!...
Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
Quantas noites, quantas! ele ali dormia
Pelo mês das ceifas, quando o luar é morno,
E das restolhadas, quentes como um forno,
Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!...
Como não sentir um entranhado afecto,
Como não amá-lo com veneração,
Se lhe dera a trave que sustenta o teto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!
Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!
E o bom velho embala o seu netinho doente...
- Morte negra, foge... dorme, dorme... ó, ó... -
E, fitando as chamas simultaneamente,
Ri-se a criancinha, vendo o oiro ardente,
Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!...
A velhinha reza, reza afervorada...
Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
Que a idealizo e creio d'esplendor banhada,
Entre palmas verdes até Deus levada
N'um andor de rosas pelos serafins...
Reza pelos mortos... reza à virgem pura...
Desde a sua infância tão ditosa e bela,
Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
Quantos têm partido para a sepultura,
Quantos têm ficado dentro d'alma d'ela!...
Dentro d'alma d'ela, triste campo santo,
Muitas almas vivem mortas a sonhar!...
Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto...
Nos seus olhos vítreos cristaliza o pranto,
Nos seus lábios roxos fosforece o luar...
E essas almas fluidas que ela traz consigo,
- Talismã da crença, mágico poder! -
Frias como a neve vêm do seu jazigo,
Vêm sentar-se todas no lugar antigo,
A chorar à roda do braseiro a arder!...
Ai dos pobres mortos que não têm fogueiras,
Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
Sob leivas, onde ninguém põe roseiras,
Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
Dando sangue aos vermes, podridões à Cruz...
D'esses desgraçados, mortos no abandono,
Onde estão as almas? P'ra que Deus as fez?
Quando o vento uivando lhes perturba o sono
Pela treva errantes, como cães sem dono,
Andarão perdidas a ulular talvez!...
Pois até por essas que ninguém conforta
A velhinha chama... e todas elas vêm...
- Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem! -
E a dos olhos garços pastorinha bela
Fia no seu fuso linho por corar;
É trigueiro o linho, trigueirinha é ela...
Rodopia o fuso... quando for donzela,
Já terá camisas para se ir casar!...
E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
Deu já cachos brancos como o branco arminho,
Já sobre ele a ave construiu seu ninho,
Já sobre ele amando palpitaram asas!...
Fuso como giras em dedinhos breves
Prazenteiramente, com tão louco ardor!
Que estarás fiando?... que enxovais?... que neves?
Se serão camisas, ou mortalhas leves,
Cama para bodas, ou lençóis de dor!...
No vetusto escano o lavrador sombrio
Pensa na courela... Santo Deus, Jesus!
Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
Como é que hade o gado pelo ardor do estio
Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!...
Choram ventanias!... pânica tristeza!...
Sentem-se na loja bois a ruminar...
Queixas insondáveis vem da natureza!...
Quanto monstro mudo, quanta língua presa,
Contemplando a Noite sem poder falar!...
Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
Almas misteriosas, em que sonharão?...
Como que n'um dúbio lusco-fusco abstrato,
De ter sido tigre lembra-se inda o gato?...
De ter sido hiena lembra-se inda o cão?...
Eis as brasas mortas... Eil-o já converso
O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do universo,
Círculo de enigmas, que ninguém traduz...
Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
Viverão, morrendo a toda a hora... sempre!...
Nuvem que troveja, cálice que embalsama,
Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
Serão tudo, tudo!... inconcebível!... Sempre!
Mas a alma, as almas quem as há criado?
Qual a origem d'onde a sua essência emana?...
Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
Lançam as estrelas à miséria humana!...
Oh em vão!... que os astros, onde em sonho habito,
São tambem fogueiras sobrenaturais,
Que na pavorosa noite do Infinito
Crepitando espalham seu clarão bendito,
Suas alvoradas róseas, virginais,
Para em torno d'elas se aquecerem mundos
A tremer com frio, a soluçar com dor,
Miseráveis monstros cegos, vagabundos,
Através d'eternos turbilhões profundos,
N'um vertiginoso, angustioso horror!...
E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
No Infinito imenso ou n'um tugúrio assim,
Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
Átomos errantes, sonhos vãos, argueiros
Na inconsciência calma da amplidão sem fim!...
E o mundo e os mundos a girar na altura
Como vós, ó velhos, morrerão tambem...
Blocos de matéria fria, sem verdura,
Errarão na vaga imensidade escura,
Cemitério d'astros que nem cruzes tem!...
Dormirão? oh, nunca!... vão eternamente
Circular na eterna vida universal:
Nebulosa fluida, lavareda ardente,
Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!...
Formas da matéria, que eu em vão desnudo,
Que invisíveis forças, e almas encobris?
Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo...
Mas o enigma impresso no seu lábio mudo
Só na treva aos mortos é que a morte o diz!...
Só a Morte o sabe... mais a Fé que abrasa,
Que penetra as coisas com o seu olhar!
Não há fé na alma, não há luz na casa...
A razão é um verme, mas a crença é aza...
Verme! aos infinitos poderás chegar!...
Ó velhinha santa, minha boa amiga,
Reza o teu rosário, move os lábios teus!...
A oração é ingénua? Vem de crença antiga?
Não importa! reza, minha boa amiga,
Que orações são línguas de falar com Deus!...
Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
Com estrelas n'alma, com visões mentais,
Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
Que andam por agrestes, solitários montes,
Sem errar a estrada, sem cair jamais!...
Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
Com os seus farrapos mais o seu bordão,
Marcham por milagre na contínua treva...
Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
Que prodígio oculto? que invisível mão?
Pois, velhinha branca, tua crença pura,
Tua reza antiga, que me faz chorar,
É igual aos cegos, que na noite escura
Não precisam d'astros para ver a altura,
Não precisam d'olhos para ter olhar!
No Infinito mudo tua ingénua crença,
Trémula ceguinha de risonho alvor,
Eil-a andando, andando, como que suspensa,
Pelos descampados d'uma noite imensa,
Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!...
E onde a águia, o génio de pupila ovante,
Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
A ceguinha débil, vagabunda, errante,
D'olhos às escuras. Infinito adiante,
N'um enlevo aéreo perpassando vai!...
Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
Corta por abismos, plagas sem faróis,
Estepes infindáveis que ninguém descreve,
Lúgubres desertos de mudez e neve,
Bátegas de brasas, turbilhões de sóis!...
Vai andando, andando, té que enfim cercada
D'uma aleluia mística de luz,
Com o bordãozinho que a amparou na estrada
Bate às portas d'oiro da feliz morada,
Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!...
Vem um anjo abri-las; a ceguinha mansa
Põe-se de joelhos, em adoração...
Diz-lhe o anjo: Toma, guarda esta lembrança:
Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
Que à velhinha humilde levarás na mão!
E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
Já com alimento para os filhos seus,
Eil-a que regressa por igual caminho,
E vem dar-te, ó santa, cor de jaspe e arminho,
Tão amada ofrenda que te envia Deus!...
Reza esse rosário, santa lagrimosa!
Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
Triste da minh'alma!... vê, que desditosa!...
Unge-m'a de bênçãos, mão religiosa!...
Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!...
Reza-lhe baixinho, minha boa amiga!
Reza-lhe rosários de orações ideais!
Morta de miséria, morta de fadiga,
Deixa que ela durma na pureza antiga...
Que ela durma... sonhe... e não acorde mais!...